Os Orixás do Candomblé - Parte II
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Arte das Culturas - Mitologia/Arte das Culturas
Escrito por Raí T. Rio   
Os Orixás do Candomblé - Parte IIComo ocorre com os deuses gregos, os orixás brigam entre si, casam-se e separam-se, têm crises de personalidade, têm os ânimos exaltados, matam e deixam-se levar por suas paixões com imensa facilidade, uns mais que os outros, uma vez que não podem ser esculpidos numa mesma forma, comos os santos católicos, aos quais não podem ser atribuídos esses comportamentos exaltados e pecaminosos.
Essas diferenças básicas e profundas entre as religiões da África e as ocidentais fez com que, durante muito tempo, os cultos aos orixás – assim como muitas outras formas de cultos e religiões da Ásia, da Indonésia e de várias ilhas do Pacífico, por exemplo, fossem classificadas como primitivas, da mesma forma que muitas religiões antigas da Europa já haviam sido classificadas como pagãs.
O que parecem ter em comum é um contato muito maior com a natureza e, consequentemente, com as forças ou energias a ela correspondentes ou associadas. Claro que também contribuiu para essa classificação o fato do candomblé – e também muitas outras formas de religiões dos locais já citados – utilizar em seus rituais o sacrifício de animais que a Igreja Católica desde muito tem associado ao culto ao demônio, como forma de impedir a realização das cerimônias e, consequentemente, chamar os “fiéis” para suas próprias cerimônias, onde a presença do sangue foi estilizada através do vinho.
Os Orixás do Candomblé - Parte IITambém como ocorria com os gregos, outro fator que diferencia enormemente o candomblé da cristandade é a existência de vários deuses, em oposição ao deus único e centralizador, considerado como um sinal de evolução ou superioridade de uma religião com relação às demais. No entanto, hoje em dia, esses conceitos já são considerados ultrapassados, e é enorme o número de historiadores, antropólogos e pesquisadores que se dedicam ao levantamento e estudo detalhado dessas religiões, percebendo sua
complexidade e riqueza, inclusive revelando detalhes das culturas onde se originaram que mostram, especificamente no caso da África, que aquelas sociedades eram muito mais evoluídas do que se imaginava em épocas passadas.
Entre os pesquisadores que mais se aprofundaram nessas questões, a idéia de “religião primitiva” já não faz sentido, da mesma forma que modernos historiadores e antropólogos conseguem detectar a existência de grandes reinos e impérios no passado do continente africano, alguns deles competindo em riqueza material, força militar e extensão territorial, com grandes impérios da Europa e Ásia que sempre foram comentados nos livros de história, enquanto a África era ignorada, acreditando-se que ali existissem apenas grupos isolados de tribos primitivas.
Levantamentos interessantes – como a história da África negra levantada por Joseph Ki-Zerbo – mostram uma civilização extremamente evoluída, ainda que diferente das civilizações européias e asiáticas em muitos aspectos. Não se pode absolutamente dizer que fossem primitivas, uma vez que possuíam sistema elaborado de comércio, de comunicação e, não raro, arquitetura elaborada e requintada, para não falar das artes em geral.

Os Orixás do Candomblé - Parte IIAlgumas das descrições feitas pelos primeiros europeus que entraram em contato com a cultura africana, especificamente em Benim, referem-se a construções, muralhas, prédios e outros, que rivalizam com o que de melhor e mais bem feito existia na Europa, deixando os visitantes boquiabertos e, não raras vezes, sequer acreditando que aqueles povos, cujas histórias associavam-nos a povos primitivos, pudessem compor reinos e impérios tão desenvolvidos.
A despeito de tanto, é certo que continua a haver oposição entre os fiéis das religiões cristãs e, principalmente, seus sacerdotes, e o candomblé, ainda que, aparentemente, a oposição maior seja dirigida mais especificamente à umbanda, uma forma de sincretismo religioso que utilizou elementos do candomblé, do espiritismo kardecista e do catolicismo. Oposição que pode ser verificada especialmente no que diz respeito aos novos grupos ligados ao cristianismo, os chamados evangélicos, que associam tudo o que diz respeito aos rituais e cerimônias com obra do demônio.
No entanto, nos últimos anos o setor da Igreja Católica chamado de progressista, ligado à teologia da libertação, tem procurado rever sua posição com relação ao que se costuma chamar de sincretismo, procurando novas soluções para a questão do candomblé, uma vez que se sabe que o catolicismo é uma religião que, pelo menos teoricamente, não permite que seus praticantes estejam ligados a outras religiões.
No Brasil, há muito que essa postura não existe na maior parte dos católicos que, vez por outra, participam de outras práticas religiosas, especialmente o candomblé. E, ainda que proponha, internamente, uma revisão de alguns conceitos, o certo é que a coexistência pacífica entre as religiões só se dá num nível superficial.
 
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